A Suíça podia estar esperando escapar levemente do ataque tarifário de Donald Trump, dado seu enfoque mais brando à regulamentação e ceticismo em relação à União Europeia. Em vez disso, foi atingida com uma das tarifas mais altas do continente, levantando preocupações para indústrias-chave.
As exportações para os EUA terão uma tarifa de 32%, muito superior aos 20% para a vizinha UE. É também mais do que o triplo do nível de 10% sobre o Reino Unido que, como a Suíça, está fora do bloco.
Por enquanto, os produtos farmacêuticos receberam um alívio, mas as tarifas afetarão uma gama de produtos, desde bens de luxo e instrumentos de precisão até chocolates. Estrategistas da Oddo BHF disseram que a tarifa poderia reduzir significativamente a demanda por relógios nos EUA e forçar as marcas a revisarem os preços, afetando empresas como Rolex, Patek Philippe e Swatch.
O governo disse que as tarifas significam que a economia provavelmente crescerá menos do que foi previsto no mês passado.
O índice de referência SMI caiu 2% na quinta-feira (3). A Logitech, que gera a maior parte de suas vendas nos EUA e obtém produtos de países como China, Vietnã, Tailândia e México, despencou 15%, a maior queda no Stoxx Europe 600.
A extensão das tarifas é um choque para o governo e as empresas suíças, especialmente dado o foco repetido de Trump na UE antes do anúncio de quarta. Ele acusou a UE de tirar vantagem dos EUA e disse que bloco foi formado para “prejudicar” o país.
Embora a Suíça tenha sido colocada em uma lista dos EUA por “práticas comerciais desleais” no início deste ano, a secretária de Estado Helene Budliger Artieda disse que conseguiu refutar isso em discussões no mês passado. Ela afirmou que o país está fazendo tudo o que Trump quer e não tem impostos ou subsídios discriminatórios.
O governo disse que o cálculo das tarifas pelos EUA é “incompreensível” e que tentará “esclarecer quaisquer mal-entendidos.”
“A Suíça é a maior perdedora da Europa Ocidental”, disse Simon J. Evenett, professor da escola de negócios IMD em Lausanne. “Mas note que uma grande parte das exportações suíças será isenta porque são produtos farmacêuticos. Outros fabricantes suíços precisarão encontrar terceiros mercados e acelerar a diversificação das exportações.”
Embora os produtos farmacêuticos tenham escapado por enquanto, isso pode não durar. Analistas do Barclays disseram que há “incerteza significativa” sobre futuras tarifas. Os setores de produtos químicos e farmacêuticos representam cerca de metade das exportações de bens suíços.
E as empresas já estão se preparando. A Roche, com sede em Basel, disse que está “considerando investimentos adicionais nos EUA para continuar atendendo às necessidades dos pacientes.” A empresa tem mais de 25 mil funcionários nos EUA.
A rival Novartis disse que também está revisando as novas medidas tarifárias.
“Estamos comprometidos em trabalhar construtivamente com a administração Trump e o Congresso dos EUA para garantir que políticas que apoiem o desenvolvimento da próxima geração de medicamentos estejam em vigor”, afirmou.
O produtor de aparelhos auditivos Sonova, que desenvolve produtos na Suíça, China e Vietnã, disse que “tem a flexibilidade” para mudar a produção, se necessário.
“As empresas suíças são campeãs em proteger suas margens”, avaliou Thomas Wille, diretor de investimentos da Copernicus Wealth Management. “Elas aprenderam a lidar com o euro fraco nos últimos anos e sempre encontraram maneiras de proteger suas margens e aumentar a receita.”
Os ataques à Suíça podem não parar por aí. Se as tarifas resultarem em mais fluxos de refúgio para o franco, isso poderia fortalecer a moeda e levar o banco central do país a considerar intervenções na taxa de câmbio novamente. Isso exporia a Suíça a acusações de ser um manipulador de moeda, rótulo que já recebeu anteriormente
“Foi surpreendente o quão alta foi a tarifa. Isso é mais do que estava previsto”, disse Petra Tschudin, membro do conselho do Banco Nacional Suíço, em uma conferência na quinta em Zurique.
Ela se recusou a dizer se o franco está sobrevalorizado ou subvalorizado.
Colaboraram Naomi Kresge, Zoe Schneeweiss e Levin Stamm