As ações mundiais, o dólar e o petróleo despencaram nesta quinta-feira (3), à medida que as novas tarifas comerciais dos EUA, impostas por Donald Trump, geraram temores generalizados de uma recessão global e levaram investidores a buscar títulos seguros e o iene.
A nova tarifa básica de 10% sobre bens importados, além de algumas taxas adicionais “recíprocas” sobre dezenas de países que Trump afirmou terem barreiras comerciais injustas, deixou os comerciantes claramente abalados por sua severidade.
Na Europa, onde o bloco de 27 países da UE agora enfrenta uma taxa recíproca de 20%, as bolsas estão caindo entre 1,3% e 2%, enquanto Bruxelas e outras capitais manifestaram indignação.
Os futuros de Wall Street caíram 3% antes do que se esperava ser um reinício turbulento nos EUA mais tarde. A queda de 2% do dólar o colocou a caminho de sua pior desvalorização diária desde novembro de 2022.
Na Ásia, onde algumas das tarifas mais severas foram anunciadas, a Bolsa de Tóquio caiu 2,77%, fechando a 34.735 pontos, enfrentando sua pior semana em quase dois anos. Já na China, a queda foi menor, com o índice CSI300, que reúne as maiores companhias de Xangai e Shenzhen, desvalorizando 0,59%, e o SSEC, de Xangai, retrocedendo 0,24%.
Analistas do JPMorgan disseram que as tarifas eram “significativamente mais altas do que o pior cenário realista” que havia sido previsto.
A agência de classificação de crédito Fitch alertou que elas eram um “divisor de águas” tanto para a economia dos EUA quanto para a global, enquanto o Deutsche Bank as chamou de um momento “único na vida” que poderia facilmente reduzir entre 1% e 1,5% o crescimento dos EUA este ano.
“Muitos países provavelmente acabarão em recessão”, disse Olu Sonola, da Fitch. “Você pode descartar a maioria das previsões se essa tarifa permanecer por um período prolongado.”
A corrida por títulos do governo ultra-seguros que oferecem uma renda garantida fez os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA caírem para cerca de 4% e o rendimento de 10 anos da Alemanha, a taxa de referência de empréstimos europeia, caiu 8,5 pontos base para 2,64%.
As novas tarifas abrangentes elevarão os impostos efetivos sobre importações na maior economia do mundo aos níveis mais altos em um século. Se elas desencadearem recessões, os bancos centrais ao redor do mundo provavelmente reduzirão as taxas de juros, o que beneficia os títulos.
O futuro do S&P 500 caía 3,47%, enquanto o contrato futuro do Nasdaq 100 tinha queda de 3,87%, e o futuro do Dow Jones recuava 2,89%.
A Apple afundava 7,1%, atingida por uma tarifa agregada de 54% sobre a China —a base de grande parte de sua fabricação. A Microsoft recuava 2,2% e a Nvidia caía 4,4%.
Isso ocorre após trilhões de dólares já terem sido eliminados das big techs conhecidas como os Sete Magníficos este ano, à medida que as preocupações aumentaram.
Os varejistas também sofrem com duras quedas nesta manhã, com a Nike caindo 9,1% e o Walmart perdendo 5,8% depois que Trump impôs uma série de novas tarifas sobre os principais centros de produção, incluindo Vietnã, Indonésia e China.
FOCO NA CHINA
As tarifas de Trump impactaram particularmente a Ásia.
A China foi atingida com uma tarifa de 34%, o Japão com 24%, a Coreia do Sul com 25% e o Vietnã com 46%. As ações vietnamitas despencaram 6,7% em resposta, e Nike, Adidas e Puma, que dependem fortemente do Vietnã e de outros produtores asiáticos, foram atingidas em até 10%.
O petróleo também começou o dia em queda de 4% em Londres, empurrando o Brent de volta abaixo de US$ 72 (R$ 410,11) por barril e firmemente a caminho de seu pior dia do ano até agora.
O ouro atingiu um recorde acima de US$ 3.160 (R$ 17,99 mil) por onça antes de perder força.
Entre as moedas, o iene japonês saltou mais de 1,5% para 147,01 por dólar, o euro subiu 2%, a 1,10 por US$ 1, e o franco suíço, outro refúgio tradicional, tocou seu nível mais forte em quatro meses.
A China manteve sua moeda relativamente estável, contendo a queda do yuan em cerca de 0,4%, apesar das tarifas totais acima de 50% sobre as exportações chinesas e o impacto no Vietnã, visto como fechando uma rota alternativa popular.
“Tarifas impressionantes em uma base país a país gritam ‘tática de negociação’, o que manterá os mercados em alerta no futuro próximo”, afirmou Adam Hetts, chefe global de multiativos e gerente de portfólio da Janus Henderson Investors.
“O foco principal nos próximos dias deve ser claramente a China”, comentou George Saravelos, estrategista do Deutsche Bank.
“Quão disposta estará a China a esperar por negociações comerciais… ou a absorver isso?”, analisou. “Ou tentará ‘exportar’ o choque… via desvalorização do yuan.”
Com reportagem adicional de Tom Westbrook, em Singapura